A VOZ ROUCA DAS RUAS - por Merval Pereira

Jefferson Severino - 29/07/2015 SC 01571 JP

A VOZ ROUCA DAS RUAS
por Merval Pereira


 

Em linguagem parlamentar chula, o tempo é de vaca não reconhecer bezerra, tal a confusão em Brasília. Como não há liderança política que se imponha para tentar controlar a crise, nem partidos de peso que possam se posicionar acima das dissidências, pois estão envolvidos em tenebrosas transações ou interesses próprios, ou não têm expressão para a mediação política necessária, o que definirá o rumo dos acontecimentos serão as manifestações populares.

Se a programada para 16 de agosto tiver a grandiosidade das primeiras, em 2013 e em março deste ano, o frágil equilíbrio do governo desmoronará rapidamente. O Congresso e os órgãos de controle, como o Tribunal de Contas da União e o Tribunal Superior Eleitoral, vão se mover segundo a voz rouca das ruas (na definição perfeita de Ulysses Guimarães), e nesse caso o espalhafatoso anúncio do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, de que está na oposição terá consequências drásticas enquanto ele tiver poder para tanto.

Claro que ter um atirador de elite como Cunha à solta por aí, com o único propósito de levar junto consigo o maior número de pessoas possível para o destino que parece inevitável, não é situação confortável nem mesmo para seus maiores inimigos.

Mas, dentro da confusão que está instalada, soou como música a ouvidos palacianos a denúncia do empresário Júlio Camargo contra Cunha. O presidente da Câmara, porém, vai fazer o estrago possível; ontem mesmo, já convocou a temida (pelo governo) CPI do BNDES e anunciou que convocará em agosto outra bomba, a CPI dos Fundos de Pensão.

Seu companheiro de infortúnios, o senador Renan Calheiros, já havia anunciado a formação das mesmas CPIs no Senado. Mesmo sem ser tão histriônico quanto Cunha, Renan Calheiros guarda na geladeira a vingança que usará contra seus adversários, enquanto tiver forças para lutar.

O mais provável, porém, é que ambos sejam obrigados a deixar as presidências das Casas que comandam, se não por questões morais que há muito superaram por um pragmatismo político desprezível, por força de decisão judicial. Mas, enquanto estiverem de posse de suas funções, farão tudo para atazanar a vida do Palácio do Planalto, que, estão convencidos, está por trás da “perseguição” do Ministério Público a eles.

Uma teoria conspiratória de péssima qualidade, pois, se o governo tivesse condições de controlar os controladores e os investigadores, não estaria na situação de penúria política em que se encontra. Mas também para Cunha e Calheiros é bom se convencerem dessa estapafúrdia versão, pois somente ela justifica o que está acontecendo com os dois.

A alternativa seria admitir que estiveram mesmo metidos em negociatas da Petrobras, o que não farão nem depois de presos, se for o caso.

Quem diz que sabe o que ocorrerá está mentindo. Tamanha confusão sem instância de mediação nunca se viu no país, a começar por governo tão fraco que não consegue nem manter maioria aparente no Congresso, quanto mais comandar um grupo político.

Cunha disse, com endereço certo, que existem vários “aloprados” no Planalto minando as negociações que Temer vem tentando. Há de fato informações de que tanto o chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante — a quem Cunha certamente quis atingir com o epíteto “aloprado” —, quanto a presidente da Caixa, Miriam Belchior, não liberam as nomeações acertadas com a base.

Mas, e se fazem assim com a anuência da própria Dilma, que nos bastidores já se queixou de não se sentir confortável com este presidencialismo de coalizão que troca cargos por votos?

O que resta a Dilma a esta altura é querer se diferenciar dos que à sua volta estão envolvidos nos escândalos de corrupção. Já disse que não vai pagar a conta pelo que outros fizeram —referência indireta ao PT e, sobretudo, a Lula — e que não encontrarão nenhum proveito pessoal dela nesses desvios.

Uma tentativa de bloquear suas próprias culpas, como ter sido presidente do Conselho de Administração da Petrobras e não saber o que estava se passando sob seu nariz na companhia. Ou “fazer o diabo” para se eleger, fechar os olhos e aceitar dinheiro sujo para financiar sua campanha.

Uma atitude psicológica natural essa de procurar se proteger quando o mar de lama se aproxima. Quanto mais não seja para justificar depois uma atitude mais dramática, como a renúncia à Presidência

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